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Da planta baixa para a moda

Andrea Gappmayer Onde: Curitiba • 28 de Agosto - 2026 |

Quatro marcas paranaenses assinadas por arquitetos e designers mostram que a transição do desenho de espaços para a criação de moda e acessórios pode ser muito bem sucedida.

A forma como habitamos um espaço e a forma como envelopamos o nosso corpo partem exatamente da mesma busca: conforto visual e expressão de identidade. Existe uma frase célebre de Coco Chanel que diz que a moda é como a arquitetura: uma questão de proporções. Se pararmos para observar o movimento atual do design, entendemos que Coco está certíssima!

 

Quando olhamos para a construção da imagem pessoal sob a ótica do branding, vestir-se deixa de ser um ato cotidiano e passa a ser uma escolha de repertório. E é por isso que os caminhos da moda, do design e da arquitetura têm se cruzado de maneira tão fascinante há alguns anos, de forma mais impulsiva. Existe uma geração de criadores que migrou das plantas baixas e do design de objetos diretamente para a construção de peças nada óbvias. O resultado dessa transição não é apenas "roupa" ou "acessório" — é uma extensão tridimensional do próprio corpo.

 

O Paraná, curiosamente, tornou-se um solo fértil para essa linguagem. Temos grandes exemplos dessa tradução, como a arquiteta Heloisa Strobel, que fundou a Reptilia em 2013. Na época, ela ainda trabalhava no escritório de arquitetura de Jaime Lerner e se apaixonou pelos processos de criação da confecção. Na hora de criar suas peças, ela entende que o próprio material a conduz nesse processo, exatamente como fazia quando atuava como arquiteta, momento em que partia do terreno para pensar. Este ano, em que completa 13 anos de marca, ela fará uma grande exposição em SP contando a narrativa visual do acervo de suas criações — que sempre trazem movimentos arquitetônicos através dos tecidos de forma impressionante.

 

Outra arquiteta que migrou para a moda foi Nicolle Gora. Urbanista de formação e pós-graduada em antropologia, com mestrado em design do vestuário, ela traduz o rigor estrutural das edificações para a escala do corpo. A marca Flua nasceu em 2022 com foco em um design minimalista, funcional e trazendo uma proposta de sustentabilidade tanto para o processo quanto para a peça final. Aqui ela explora as assimetrias de formas femininas com recortes interessantes, porém sempre com um olhar de conforto e acolhimento do corpo para uma mulher contemporânea e solar.

 

“Quando o olhar do arquiteto e do designer se volta para o corpo, as peças deixam de ser apenas matéria-prima e viram estrutura visual. É a fusão perfeita entre habitar e vestir."

 

Chama-me a atenção o olhar delas, que conseguem captar através da arquitetura novas formas de criar o vestir, atualizando o mercado que ganha um frescor estrutural cheio de personalidade — a grande busca hoje ao se vestir. Trazer a própria personalidade para a expressão visual atua como assinatura e, consequentemente, gera um diferencial competitivo na imagem como resultado do seu próprio trabalho (seja ele qual for). O traço dessas marcas não busca a efemeridade das tendências; busca a precisão da modelagem, a fluidez das linhas — é a moda pensada como microarquitetura viva.

 

A mesma lógica observamos nas criações de Marcos Novak, arquiteto e professor, que explora desde 2006, em sua marca de bolsas, o jogo de proporções através da síntese entre estrutura, materiais e formas. O foco dele é trabalhar com técnicas manuais e tradicionais, buscando o máximo aproveitamento de materiais para a redução de resíduos devolvidos ao meio ambiente. Suas criações sempre possuem um tema-chave, como estas bolsas que têm inspiração nos cobogós — estruturas típicas da arquitetura modernista brasileira utilizadas para construir paredes vazadas que permitem a passagem de luz. Sua bagagem arquitetônica se traduz em peças de volume dramático, feitas para quem entende a peça como uma forma de escultura.

 

Essa mesma precisão migra sem esforço para a escala dos detalhes através do olhar dos designers. A designer Silvia Doring, por exemplo, constrói joias que funcionam como verdadeiros pontos focais no visual — peças com volumetria e formas que remetem ao design de objetos de arquitetura. A marca homônima traz hoje, em seu repertório de mais de 19 anos, um pool com diversos designers que criam através do mesmo prisma visual, sob a direção geral de Rubens Burgel, que assumiu em 2016 como sócio-diretor. A marca sempre busca referências literais dos universos do design, da arte e da arquitetura para se inspirar nas coleções. Amo a construção das peças da coleção inspirada em Zaha Hadid, arquiteta iraquiana-britânica, revolucionária e intitulada a "rainha das curvas". As peças possuem esse olhar vivo com cantos geométricos e arredondados, característica forte no trabalho de Zaha que a marca trouxe fielmente para as joias.

 

O que todas essas marcas têm em comum — e o motivo pelo qual conversam tão bem com o momento da arquitetura global — é a busca por uma estética autêntica, ancorada na forma e no conteúdo. Em um mundo saturado pela reprodução em massa e pela perda de identidade, buscar marcas que carregam DNA próprio é o movimento mais inteligente para quem deseja construir uma imagem forte. Escolher peças que nascem do traço do design e da estrutura da arquitetura é adicionar camadas invisíveis de repertório ao seu estilo. No fim das contas, a moda mais interessante não é a que apenas veste, mas a que projeta quem nós somos.

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