Arquitetura

Patrimônio histórico e segurança

Onde: EUA • 22 de Outubro - 2026 |

A morte do reitor da PUCPR, Irmão Rogério Renato Mateucci, em Taliesin West, reabre o debate sobre como preservar imóveis antigos.

O trágico acidente climático que resultou na morte do reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Irmão Rogério Renato Mateucci, de 55 anos, trouxe à tona uma discussão complexa que há anos mobiliza especialistas em arquitetura e patrimônio histórico: os limites e desafios na manutenção de edifícios icônicos do modernismo. O caso ocorreu na última sexta-feira (16), em Scottsdale, no Arizona (EUA), durante uma visita guiada ao complexo Taliesin West, uma das obras mais célebres do arquiteto norte-americano Frank Lloyd Wright.

 

De acordo com o Departamento de Polícia e o Corpo de Bombeiros de Scottsdale, o educador brasileiro participava de uma caminhada pela propriedade quando fortes rajadas de vento, que atingiram cerca de 50 km/h na região, desprenderam uma placa de acrílico rígido da cobertura de uma das estruturas. O fragmento, arremessado à distância, atingiu a cabeça de Mateucci, que faleceu imediatamente. A polícia local informou que o caso está sendo tratado estritamente como um acidente meteorológico, sem indícios de crime. O complexo foi fechado por tempo indeterminado para vistorias técnicas pelas autoridades e pela administração do espaço.

 

O Irmão Rogério Renato Mateucci cumpria uma agenda de imersão internacional acadêmica na Arizona State University (ASU). Pedagogo de formação, doutor em Liderança Educacional pela Fordham University (Nova York) e membro da Congregação dos Irmãos Maristas, ele liderava a PUCPR como reitor desde 2022, tendo sido reconduzido recentemente ao cargo. Sua morte prematura gerou profunda consternação na comunidade acadêmica e política paranaense, que decretou luto oficial de três dias.

 

O laboratório desértico de Wright


Construída a partir de 1937, Taliesin West foi concebida por Frank Lloyd Wright para ser sua residência de inverno, estúdio e escola experimental de arquitetura. O local é reconhecido como National Historic Landmark nos Estados Unidos e integra o prestigiado selo de Patrimônio Mundial da UNESCO que protege o legado da arquitetura moderna do século XX.

 

O complexo é um dos maiores exemplos da "arquitetura orgânica" propagada por Wright, construído com a técnica de desert masonry (utilizando pedras e areia coletadas no próprio Deserto de Sonora) para que a edificação parecesse emergir naturalmente da paisagem.

 

O dilema crônico das coberturas


A dinâmica do acidente gerou questionamentos técnicos sobre a estrutura do telhado da propriedade. Originalmente, Wright projetou as coberturas de Taliesin West de forma efêmera, utilizando lona de algodão esticada sobre vigas de madeira. A intenção era criar um "acampamento permanente", onde o tecido translúcido filtrava a luz solar e permitia uma ventilação natural contínua, borrando as fronteiras entre os ambientes internos e externos.

 

No entanto, o material têxtil original sofria degradação acelerada sob o severo clima do deserto. Nas décadas seguintes à morte de Wright (ocorrida em 1959), o gerenciamento do sítio histórico buscou soluções mais duráveis para permitir a ocupação do espaço ao longo de todo o ano. Após um incêndio destruir parte do pavilhão nos anos 1960, novos materiais foram testados, culminando na instalação de painéis fixos de acrílico translúcido durante a década de 1990.

 

Conservação e segurança em xeque


Ironia do destino ou urgência técnica, a própria Frank Lloyd Wright Foundation, organização responsável pela tutela do espaço, detalha em seus relatórios de conservação que trabalhava há mais de dez anos em um plano de modernização dessas mesmas coberturas. O projeto previa justamente a remoção dos painéis rígidos de acrílico instalados nos anos 1990 para reintroduzir um tecido tecnológico contemporâneo de alta performance. O objetivo era resgatar a fidelidade estética e a ventilação originais desenhadas por Wright, mas com resistência térmica e mecânica superiores.

 

Especialistas em preservação ressaltam que o episódio ilustra o maior dilema do restauro moderno: edifícios históricos não são estáticos e precisam passar por adaptações de engenharia para continuar existindo e recebendo o público. Contudo, substituições de componentes originais exigem uma avaliação rigorosa não apenas do impacto visual, mas do comportamento de novos materiais frente a intempéries e fadiga dos sistemas de fixação ao longo das décadas.

 

A apuração oficial conduzida em Scottsdale deve determinar se o desprendimento da peça foi uma falha pontual decorrente da violência atípica do vento ou se apontará para lacunas nos protocolos de vistoria e manutenção de um dos monumentos arquitetônicos mais visitados do sudoeste americano.