A arquitetura da desaceleração
Onde: Curitiba • 14 de Maio - 2026 | Fotos Eduardo MacariosAmbiente na Casacor Paraná mostra como a casa pode se transformar em antídoto para o excesso de estímulos.
Vivemos em uma sociedade em que tecnologia, comunicação, trabalho e consumo aceleram continuamente o ritmo da vida, criando a sensação permanente de falta de tempo. O ponto interessante é que a percepção não vem apenas do relógio, mas do excesso de estímulos e experiências comprimidas no mesmo intervalo de tempo. A lógica atual exige resposta imediata, produtividade contínua, atualização constante e hiperconectividade. Isso faz com que muitas pessoas sintam que nunca conseguem “acompanhar” o próprio cotidiano.
É o momento certo para a Arquitetura responder a esse danoso tipo de esgotamento coletivo. Um exemplo é a Sala Presença, da arquiteta Alessandra Gandolfi, na Casacor Paraná deste ano. Em vez de cozinhas afastadas e ambientes fragmentados, o projeto aproxima preparo de alimentos, convivência, música, drinks e descanso no mesmo espaço. Ao reduzir deslocamentos as pessoas permanecem juntas por mais tempo, sem interrupções constantes.
Um carrinho de bebidas próximo da sala, uma cafeteira integrada ao estar, jogos acessíveis, mantas, livros e iluminação mais confortável ajudam a criar espaços onde as pessoas desejam ficar — e não apenas passar. Outro aspecto importante está na iluminação. O projeto utiliza luz regulável em intensidade e temperatura ao longo do dia, criando cenas mais suaves à noite e reduzindo estímulos visuais excessivos.
As texturas também têm papel importante na desaceleração. O ambiente apresenta tecidos encorpados, tapetes aconchegantes, madeira escura, cerâmica, barro, argila e superfícies táteis.
A presença de objetos afetivos é expressiva. A radiola com vinil, o telefone de discar e peças de acervo pessoal aparecem como contraponto à lógica descartável e acelerada do digital. Ao invés de ser uma “casa perfeita” ela incorpora memória, história e identidade. Fotografias, objetos herdados, livros, discos e peças garimpadas ajudam a construir ambientes emocionalmente reconhecíveis — algo que hoje tem relação direta com sensação de conforto.
Outro detalhe relevante está na própria paleta cromática. Alessandra evita cores excessivamente vibrantes e aposta em tons profundos, terrosos, verdes e bordô para criar uma atmosfera mais contida e acolhedora.
No fundo, o ambiente propõe uma inversão interessante: durante anos, a tecnologia doméstica prometeu acelerar tarefas e otimizar o tempo. Agora, a arquitetura começa a perguntar o que fazer com uma sociedade que já acelerou demais.
Serviço
Sala Presença, por Alessandra Gandolfi
Data: 10 de maio a 5 de julho de 2026
Endereço: Avenida Cândido Hartmann, 405, no Bigorrilho, em Curitiba
Ingressos
Inteira: R$ 110
Meia-entrada: R$ 55
Pré-venda: R$ 99
Terças a sextas: 14h às 21h
Sábados: 13h às 21h
Domingos e feriados: 13h às 19h